sexta-feira, 22 de março de 2013

Um instante

Olhos fechados, mãos juntas e um pedido.
Deus seja com ela, porque tem medo da vida;
porque tem medo do fracasso;
porque tem medo de terminar sozinha.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

O Rapto

Ontem à noite, senti que meu corpo não pertencia mais. Era como um externo encolhido, ficando cada vez menor do que o que houvesse por dentro.
Eu era maior do que o espaço que ocupava. Meu coração oscilava, como se não tivesse uma superfície sobre a qual pudesse ser, procurando por alguma coisa que eu desencontrava.

Eu ansiava por um momento que durasse. Tinha descoberto o tudo e me preparava para o porvir.
Porque eu presumia.
Sentia.


terça-feira, 15 de janeiro de 2013

A cor mais escura de todas

O choro lava a alma, alivia o espírito.
Não derramarei lágrima alguma. Reprimirei, engolirei;
Se assim o seu rosto permanecerá vivo, o seu cheiro pungente, seus olhos verdes abertos.

Apago.

O preto é ausência.
E é na falta que eu descanso o peso do meu corpo sobre o leito.
E confio na esperança da eternidade.
Até que nós dois sejamos infinito.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Tempos de [Paz]

Em tempos de agora, em que o relativo, a exaltação da verdade individual e a liberdade de expressão estão em voga, o que nos resta é que nem tudo seja "relativizado", perdendo sua essência metafísica; que a verdade individual nunca tente se impor sobre aquela ao seu lado; e que a liberdade de expressão sempre espere o turno da réplica, sem pedras nas mãos.
Portanto, lutemos por esses valores que nem só deuses, constituições, tradições e pais nos ensinaram, mas que a própria humanidade grita como marca.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Raios

A arte não serve para nada.
Ela transcende o estado da funcionalidade.
A arte é essência humana.
Questioná-la é o mesmo que tentar descobrir por que o homem existe.

A arte existe por causa da humanidade ou a humanidade existe por causa da arte?

Por que raios existe o homem?


sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Minha Tia, Nossa Bininha

Hoje fez quatro dias que a Bina morreu. A morte é tão estranha...
Ela se foi. Mas isso não significa que ela não está mais em nós. Não só lembramos dela todas as vezes que tomamos um cafezinho ou vemos uma decoração de natal, mas suas coisas ainda estão no seu devido lugar. Acabei de abrir a "caverna" dela - um armário no escritório, onde ela guardava todas as bugigangas - e vi tudo igualzinho, do mesmo jeito de sempre. E a lembrança dela gritando e nos puxando pela camiseta toda vez que espiávamos a "caverna" estava ainda tão presente no meu pensamento, que, bem lá no fundo eu esperei que ela ainda pudesse entrar no escritório, naquele momento, agitando os braços e gritando e sorrindo, porque a gente viu toda aquela bagunça acumulada  que ela juntava e escondia da vovó há  tantos anos.
Agora, estou sentada no sofá, bem no lugar que ela sentava todos os dias depois do almoço para tomar café, assistir "Vale a Pena Ver de Novo", esticar as pernas e dar aquela cochilada gostosa.
Mas, o difícil é não pensar nas coisas que ela não terminou de fazer: não terminou de assistir a novela, não pôde usar o colarzinho de panda que eu dei de Portugal pra ela, não ouviu a Bebel balbuciar os primeiros sons, não esperou a festa que a gente ia dar pra quando ela voltasse do hospital. E com direito às suas últimas exigências: pizza do Di e bolo de chocolate com morango da vovó.
Desses 50 anos, dos quais 21 eu participei, eu agradeço por ter me amado primeiro, por ter me ajudado a terminar de pintar meus desenhos, por me dar o melhor cafezinho, por ainda me fazer acreditar na humanidade, tamanha era sua bondade e beleza.
Até pra ir embora a Bina foi comportadinha. Foi no silêncio da noite que era pra deixar todo mundo achando que tinha acordado de um sonho. Um sonho bom que durou 50 anos completos.
E só o que fica é a saudade de ter acordado...

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Anti-publicismo

Sentimento é intimo, único. Mostre apenas pra quem vale a pena mostrar.
Deixe-se ser julgado por aquilo que os outros não podem ver.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

É proibido pedir

Da janela da sua casa, ele traga um cigarro.
E a cada baforada, suspira. Pensa.
Pensa que só quer pensar.
Nada mais.
Será que deixam?

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Outros quinhentos

Mais uma página virada. Agora, é definitivo.
Agora; definitivo. 
Agora não implica depois; definitivo é muito tempo para pouco futuro conhecido.

Então... por enquanto é decidido.
Amanhã serão outros quinhentos.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Maniqueísmo morto // Dicotomia assassinada

Qual é mais autoritário, a tristeza ou a felicidade?
A tristeza é mais natural ao homem. Logo,  a felicidade precisa de autoridade para se sobrepor.
Mas, mais importante do que viver pensando se é feliz ou triste,
é viver.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Um leão na minha sopa

Descobri que tenho necessidade em ser necessária.
Esse é o meu vício.
Eles me procuram; eu procuro.
Tenho tesão por ouvir o problema dos outros, porque me dá prazer.
Prazer, já que os meus não se comparam aos deles.
Numa escala de zero a dez eu perco em todas as disputas.
É confortável sentir que eu sou uma grande perdedora, mas não é só na escala que eu perco.
Eu sou uma grande, senão a maior, perdedora da inconstância.
Uma mosca na sopa vira um estardalhaço.

[Todo vício é lesivo.
Agora, me vejo sem calor, com preguiça e trancada pelo lado de dentro].

Queria eu ter que matar um leão todos os dias.
Ao invés de me apavorar com uma mosca na minha sopa.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Miragem

Imagina. Pensa que pensa. Mas nada vê.
Não enxerga um palmo, um passo, um suspiro.
A vista é turva de ressaca; de cegueira plena; de realidade vazia.
E confia ingenuamente num desejo fulgor.
Irreal.
Mórbido.
Mentiroso.
Muito belo.
Enganoso.

A verdade passa despercebida.
E a vida continua.
Sem saber que a hora já tinha sido.
Que a felicidade é ideia antiga.
Que a esperança...
vira rotina.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

O Regresso, segundo Szymborska

Wislawa Szymborska, escritora polonesa e ganhadora do Nobel de literatura de 1996, respondeu, um dia, ao ser questionada sobre suas tantas viagens, que não gostava de viajar.
O que ela adorava, de fato, era o regresso.

Mudar de lugar, é começar de novo.
Regressar, é continuar novamente. Diferente, somado, melhorado ou piorado.
Mas, a possibilidade de voltar igual é quase sempre inexistente.

Por ora, é hora de continuar novamente. Sempre sabendo que a possibilidade do começar de novo, exista.
Basta querer. Basta desejar. Basta pedir.
Um, já vai ficar. Das outras duas, só posso falar por uma delas.
E esta, descobriu, ainda que ingênua e prematuramente,
que, talvez, seu lugar seja sempre o regresso para casa.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Caleidoscópio

Me falaram pra eu ir viver minha vida. Me pergunto o que eu tenho feito todos esses anos, dias e horas...
Definitivamente, viver a vida é como olhar por um caleidoscópio: cada um vê uma imagem.
O que eu vivo, não é o que fulano vive. Do mesmo jeito que me pedem pra viver mais, eu peço pra que vivam mais também.
Se eu não vivo para outrem, imagino o que seria vida pra esse alguém. Se fosse viver a vida do outro, seria infeliz.
Eu vejo vida na minha preguiça. Mas não vejo preguiça na minha vida.
Pelo contrário. Se me dessem o poder do tempo, pausaria a progressão aritmética do meu crescimento.
Eu reluto. Mas, eu vivo.
Eu quero querer viver.
Viver a vida como eu a enxergo ser vivida.
E nada mais além.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Mau sucesso

Uma pessoa malsucedida luta, em busca de encontrar algo que seja capaz, explorando todos os campos visíveis de um possível agir. O bem-sucedido para de procurar no momento em que conhece o cume.
O que significa ser bem-sucedido mesmo?

sábado, 14 de abril de 2012

Acordo, logo penso

Às vezes, tenho medo que, por pensar tanto e por tanta irreverência, eu seja injusta. Me perdoe, meu Deus, por tanta falta de controle. Mas simplesmente não consigo evitar. O mesmo dom dado de presente é a maldição com que convivo todos os dias, e que, diga-se de passagem, nunca desejei ter.
Sim, dom e maldição são opostos perigosos. Mas exprimem exatamente o que sinto. De modo que a grande admiração é seguida de um enorme terror e revolta.
Medo? Talvez... mas, principalmente, tenho a impressão de que nunca sou entendida. Afinal, todo interior de alguém é ridículo, caótico, idiota. Provavelmente, a sinceridade, de fato, eu raramente atingi. Por isso, faço por mim. E em última instância faço por outrem.
Quem canta, seus males espanta. Quem fala, também.
Acredito que há oportunidades-momentos para falar. Mas um falar libertador, que nos liberta de falta de entendimento, falta de comunicação, falta de audição, falta de compreensão.
Falta de coragem.
Então me culpo pela ousadia ausente. Pelo admitir atrasado.
Enfim, por não reconhecer o óbvio.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Misogenia

Maldição é enxergar tudo quanto vê;
singularizar a vida - passado, presente, futuro.

Esconde em si uma caixa de pandora, a qual, no mínimo esforço para abrir, libera seus monstros-feras-visões.
Então, guarda a acidez de suas lágrimas.
Para um mundo que, apesar de tudo, ainda não está preparado para aceitar a redenção de uma jovem mulher.

domingo, 1 de abril de 2012

Entre quatro paredes

Liberdade.
Transgredir, muitos diriam.
Mas, por ser uma ideia comum, já não vira uma regra?
Liberdade deve ser usada no secreto, no íntimo do pensamento, entre algumas paredes. A necessidade de torná-la popular é uma busca de aceitação escondida.
A liberdade pública cria adeptos e vira moda; padroniza; escraviza.
Cada um sabe a liberdade que tem e usufrui.
Cada um deve conhecer sua liberdade.

"A liberdade é a possibilidade do isolamento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo" - Livro do Desassossego (Fernando Pessoa - Bernardo Soares).


quinta-feira, 22 de março de 2012

sábado, 17 de março de 2012

Ode ao esquerdo

Eu sou de; eu nasci na; eu fui criada na; eu respiro; eu falo; eu ando; eu me visto.
Eu cansei de.
A edificação alheia é ainda uma prioridade, mas não está mais no topo da minha lista. Antes, me pergunto quando será possível edificar o meu eu egoísta, egocêntrico, pseudo-coletivo. Porque eu sou humano; húmus, preso à terra, oposto ao divino. Sou sujeira, pó; mas também recebi um sopro de vida.
Porém...
se conter é adequado; pulmões selados; grito abafado.

Vou repetir o que tento dizer todos os dias: meu grito não é alto. É quase inofensivo. É feito de papel, caneta, suor e uma pitada de inspiração.
Mas ele me edifica; me consola; me permite a introspecção no momento em que reflete a minha intimidade, mas se coletiviza no momento em que acredito existir outros também abafados em seus próprios gritos.  
Busco sabedoria para soltar todo esse barulho; berrar sem matar.
Mas, também declaro publicamente de que a repercussão disto começa a não me intimidar mais.

domingo, 11 de março de 2012

Declaração de Amor

Data: dez de abril de dois mil e doze
Assunto: declaração de amor
De: papai. bonitao@paitrocinio.com.br
Para: filhota_orgulhodopapai@paitrocinada.com.br


Filhinha do meu coração,
hoje acordei às 3h da manhã e escrevi essa linda declaração de amor pra vc:

EU, PAPAI, PORTADOR DO PASSAPORTE BRASILEIRO E DA CONTA BANCÁRIA PARCIALMENTE CHEIA DO PONTO DE VISTA DA MINHA FILHA, DECLARO-ME RESPONSÁVEL FINANCEIRAMENTE DA MESMA, SIMTIA, PORTADORA DO PASSAPORTE BRASILEIRO E DE UMA TREMENDA CARA DE PAU DE ME PEDIR DINHEIRO, DURANTE SUA ESTADIA FORA DO PAÍS POR MOTIVOS DE ESTUDO, COMPRAS E VIAGENS.

________________________
           (assinatura)

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

A conquista

As grandes conquistas confirmam as expectativas que se têm daqueles que conseguem ser bons em tudo. Mas daqueles que falham, elas são ainda mais surpreendentes.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Meleca

A vida é dura.
Meu pai sempre me disse isso.
Logo, achei que não havia como ser de outra forma.

Mas, há pouco tempo tive uma esperança.
A vida é dura; pra quem é mole.

Porém minha felicidade durou pouco:
não havia outro jeito. Já era mole.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Pura e simples

O que enche o coração de alegria de viver um pedacinho daquilo o que sempre sonhou; o que faz sentir uma parte da tão almejada realização; é o fato de não ser um sonho.

É realidade. Pura e simples.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Wonder(ful)

How easy people come and go in São Paulo. Do they ever talk to each other, discovering friends in common? Do they ever discuss the weather with each other? Do people still fall in love with each other on their way to the office? Do they ever notice each other?

Do they wonder?

domingo, 29 de janeiro de 2012

O nascer do sol

Não se percebe um momento exato em que o preto se separa do branco.
Só se lembra de que o momento anterior era mais cinza que o de agora.

domingo, 22 de janeiro de 2012

O que é doce

A espera de viajar e ficar um tempo fora é a da pior espécie. Primeiro, a ficha não cai. Segundo, quando ela cai, é como se despedir eternamente de tudo: família, amigos, cachorro, quarto, livros...

Talvez, fosse melhor se as coisas fossem mais instantâneas. Mas, estamos cansados de saber que o melhor, nem sempre é o mais gostoso. Talvez, essa espera vitalize a memória futura, o sorriso sincero ao relembrar de tudo isso uma, duas, três...mil vezes.
Talvez a espera apenas...vivifique.

Porque o que é doce, sempre acaba.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Trupicão



tropeçar: v.t., int. 1. Dar com a ponta do pé em algum obstáculo; tropicar. (fig.) 2. Encontrar dificuldade na execução de alguma tarefa. 3. Cair em erro; resvalar moralmente.

Todos nós tropeçamos. Alguns mais, alguns menos. 
Uns logo se levantam. Outros, se deixam vencer pela gravidade. Ficam no chão por mais tempo e têm dificuldade em se levantar. 
Há também aquele que escolhe ficar caído, esperando outros passarem pra puxar consigo. E há pessoas que esperam ser levantadas. Na esperança de que um bom samaritano passe ali por perto, ou mesmo um anjo os tire de certo. Esperam um sol no horizonte ou uma chuva para limpar os machucados. Mas só esperam ali sentados. 
Mas há aqueles que caem e se levantam sozinhos. E quando se levantam, encontram força e coragem para continuar e enfrentar a vida.


Mas há por acaso como evitar tropeçar?

Sinto lhe dizer que não.

Apenas, olhe por onde anda.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Era uma manhã


Era uma manhã normal como todas as outras vividas nos últimos anos da minha maravilhosa e incrível vida. Exceto  que por um milagre divino das galáxias distantes, meus pés encontravam a areia suja e úmida da praia, que esfoliava os cascos dos meus calcanhares. 
“Ah, o verão...”.
Esse era o tipo de pensamento que se passava pela minha cabeça naquele momento.
Curtir o verão na praia é uma coisa. É agradável. Porque quando você  não aguenta mais aquele suor que gruda areia, bituca de cigarro e outros corpos em  seu corpo, é só dar um pulo na água gelada do mar.  Mas, sentir o calor numa cidade grande, meu irmão...não é para os fracos.
Porém, nada melhor do que a época do natal em que você nem lembra mais quando ganhou presente, mas pelo menos viaja. E viaja só porque depois que a AZUL chegou, todas as companhias aéreas decidiram distribuir ótimas promoções.
Mas, voltando, eu estava caminhando pela praia. Me exercitando mesmo. Porque quando você está de férias e desempregado, acabam-se as justificativas para o sedentarismo. E mamãe te levanta às 8 horas da madrugada para queimar as gordurinhas.
“Ah,  a mamãe...”.
Esse eu te garanto que não é o primeiro pensamento que passa pela minha cabeça quando ela me acorda.
Mas, tudo certo.  A gente senta na areia e olha pro horizonte. E curte a paisagem. Sente a brisa.
“Eu te amo, filha”.
“Ainda bem, né...”.
Olho de soslaio e ela me olha com aquela cara. Dou risada.
“Também te amo, mãe”.
E, de repente, levantar cedo nas férias não parece mais tão ruim. 

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Cream Cheese

Eu amo cream cheese.
Ultimamente tenho visto um pote na geladeira. Mas eu nem chego perto.
Não toco nele. Prefiro ter a sensação de que toda vez que eu abrir a geladeira, ele estará lá. Não vê-lo, deixaria minha alma inquieta. Prefiro ter na memória a última sensação de prazer que tive, quando comi um pedaço de pão integral inundado de cream cheese.
Então, cream cheese  peço que não me chame quando eu abrir a geladeira, ou que pelo menos não faça contato visual.
Não quero estragar os últimos momentos que passei com você.
E apenas saber que está por perto, basta para mim. 

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Morena de tantos Brasis

Sentada no chão, bem no cantinho, observo em silêncio. Silêncio e admiração. E vejo a brasilidade diante dos meus olhos castanhos. Marrons da cor da terra, do barro, da cerâmica, da argila, da raiz.

Vestida com um manto branco.

A pele morena, digna de uma caucasiana, contrasta com a cor do vestido. Os cabelos lisos de africana, movimentam-se conforme ela gira ao redor do próprio eixo. Os olhos amendoados das índias se fecham e sentem os pés tocarem a terra úmida. Os dedos penetram na areia e estabelecem um equilíbrio com o corpo, com as raças, com as etnias, com as cores.

Ao final, ela despenca no chão. Os cabelos ficam sujos de barro e ela sorri. Um sorriso claro de luz. E fala a língua do seu povo, numa voz que faz tremer os horizontes. Ela ama a própria terra, a própria tribo. Com sotaque de Minas Gerais.  

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Cuco

Da sala de estar da casa da vovó, eu escuto. Eu escuto o pêndulo do relógio.
De um lado para o outro.
Tic-tac; tic-tac; tic-tac...
Um relógio antigo, marcando o tempo de mais de três gerações. E me pergunto: Quantos atrasos ele já deve ter marcado?

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Enzo Garcia

E se você pudesse escolher o que enxergar? Como se pudesse selecionar a parte que mais gosta em uma imagem qualquer. As coisas seriam melhores ou apenas ilusão? Será que, talvez, saber demais seja uma realidade tão real que, por isso, seja insuportável? Será que, viver ilusoneamente* afaste de você a realidade e te transforme num sonho? Então, talvez, dizer a alguém "você é um sonho", seja a mesma coisa que dizer que ela é boa demais para ser verdade, que ela simplesmente não existe. Ao invés disso, talvez devêssemos dizer "você é uma realidade".




O erro é proposital. 

sexta-feira, 20 de maio de 2011

A origem do medo

Pior do que perder alguém, é sentir que irá perder. É justamente esse "sentir que irá"que se resume em um tempo irresumível. Permanece como uma bigorna no peito, que pressiona o par de pulmões contra o coração, que dói ao respirar um ar que queima mais que veneno. E a sensação de impotência causa angústia. Uma angústia aguda, egocêntrica, ofuscada. E Alá, Zeus, Odin, Olimpo, céu e inferno são consultados em busca de respostas, em busca de reforços. Mas não obtém-se palavra. Uma única palavra. Obtém-se silêncio, ausência de som, vida muda; que sufoca pacificamente. E o consolo atrasa e o conforto foge. O colorido se torna escuro; da cor do preto, da cor de uma tonelada. E o cérebro congela, e o tempo pára. E o ar acaba. E a esperança se esconde. E a incerteza domina. E o medo surge.


Obs.: para ler ouvindo "Quem Sabe"- Los Hermanos.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Convite ao silêncio

Frio. Contido. Controlado. Calculado.

Vivo o paradoxo de tentar enxergar através do frenesi chamado São Paulo. E essa vida nos faz falar. Falar sem dizer. Falar por falar.

Há momentos em que não existe a necessidade de falar. Mas de calar-se, e ouvir a voz dos outros. De ouvir uma piada, um relato, um desabafo. De rir junto.

Deus nos deu dois ouvidos e uma boca. E a insistência em praticarmos dez vezes mais a língua do que os tímpanos, nos torna perdedores. Perdedores de singularidades, de boas memórias, de hesitações.

Penso que a fala deveria ser usada apenas em ocasiões especiais. Fora isso, deveríamos viver em silêncio. Exercitando nossa audição. Em um processo de ouvir sorrisos, olhares, gargalhadas, suspiros. Na esperança de ouvir e captar sentimentos.

domingo, 1 de maio de 2011

Proposta ordenativa

Proponho o pensamento simples, o tempo, a reflexão, para este mundo literal que nem sua própria obviedade reconhece.
Exijo tempo deste século para se praticar o nada, para simplesmente consumir o tempo, e quebrar com a mecanização automática e viciante que anula a genialidade, o brilhantismo.
Defendo a dramatização da vida e a exaltação das emoções.
Foco nos erros do dia.
Reclamo sal para essa época sem gosto.
Espero observação para essa vida cheia de superfícies.
Aposto na conciliação dos espíritos apolíneo e dionisíaco, para que juntos, nos promovam um equilíbrio abundante em extremos.
Peço amor para esses tempos de guerra.
Logro a vida pelo o que ela é e pelo tanto que me inspira.

domingo, 13 de março de 2011

Ei, você!

Você mesmo! Você, dos muitos que já me perguntaram, porque eu parei de escrever e eu não soube o que responder. Não completamente. Talvez, porque, um dia, eu pensei que estudar arte me ajudaria. A consequência de seguir esse caminho, é um relacionamento de constante amor e ódio com ela (ou talvez, com o estudo dela).

Sou como uma lagarta, presa ao casulo, mas que não consegue se transformar em uma borboleta. Não de fato, nem plenamente. Todas as vezes que sinto a metamorfose, o abrir das asas, sou sufocada por aquela casquinha que me envolve em aconchego, conforto. A luta é grande, mas a casquinha vai se transformando em estrutura óssea, e pesa. Pesa, o peso da angústia, do fracasso, da incapacidade, da improdutividade. Eu me humilho, me envergonho, diante do talento que eu desconheço. Mas penso que, talvez, ter seguido este caminho, seja um exercício de romper o exoesqueleto diariamente. Talvez seja um pacto diabólico sem solução, mas que exija superação. Enquanto isso, sigo admirando. Admirando, à distância, o dom das palavras que me escapa por entre os dedos.

Mas, o fato é: a culpa não está no casulo. Digo, no estudo. A culpa é minha. De pesar razão e espontaneidade na mesma balança e querer que ambas desfrutem de um relacionamento sadio. De dar atenção ao que vejo, e não ao que enxergo. De esquecer que mente e coração são duas faces de uma mesma moeda, que vivem sobre o mesmo corpo, mas nunca se encontram de frente. De que arte, é folhear um livro antes de lê-lo, é adivinhar antes de abrir os olhos. 

Por fim, peço desculpas pelo descarrego. Mas, com isso, espero que entendam, como é difícil se achar magro, tendo uma balança em casa. 

Daqui a pouco, a névoa se dissipa e eu crio coragem para pular do abismo. Sem fechar os olhos. Só para poder fitar o chão que eu não vou atravessar.

Meus sinceros agradecimentos.